[sem título]

Luis Camillo Osorio
Rio de Janeiro, Brasil, 2011
Texto para o catálogo da exposição Fendas, no MAM-Rio, 2011.

 
 

Escrever este texto para o livro-catálogo da exposição de José Bechara no MAM-Rio é um dever prazeroso. Primeiramente, pelos anos de convivência, desde nossa primeira exposição em 1992. Depois por ser o curador do museu neste momento importante em que se realiza esta exposição antológica contemplando os vinte anos de carreira do artista. Ter ficado durante dois meses convivendo com um conjunto representativo de trabalhos do artista me fez mergulhar um pouco mais na sua obra. Ainda não deu tempo de sair completamente para fora d’água e olhar com a vista desembaçada o horizonte que se apresenta daqui para frente; mas creio que já dá para compartilhar algumas insinuações preliminares.
 
Uma antologia de meio de carreira implica avaliação, reflexão e projeção. Reúne-se um conjunto significativo de trabalhos na tentativa de ressaltar os momentos de concentração e deslocamento da obra. Revelam-se assim os caminhos de um estilo, que nada mais é do que a busca da singularidade poética, a expressão de um princípio de individuação no interior de uma historicidade compartilhada.
 
Se, de início, sua obra era predominantemente pictórica, com o passar dos anos, e a partir do próprio desenvolvimento de sua poética, ela foi incorporando elementos escultóricos e começou a dialogar mais diretamente com a arquitetura. A saturação das oxidações foi se acumulando, por pressão da própria maturação do seu processo, na superfície das lonas e se projetando no espaço. Este jogo entre saturação e estruturação acompanha o desenrolar do trabalho. Ora predomina a densidade matérica, o acúmulo de elementos que se concentram e se expelem, ora sobressai o esforço estruturante, a grade geométrica e o desenho linear.
 
Creio que os primeiros dez anos de sua trajetória foram de enfrentamento direto da pintura e sua crise. No seu caso, somou-se à dimensão histórica da crise – que tocava a todos os jovens artistas que se formavam ainda no refluxo da década de 1980 e do seu “retorno” ao mesmo tempo festivo e nostálgico à pintura – um elemento pessoal causado pela proibição médica de contato com tintas e solventes. A solução foram lonas de caminhão usadas e marcadas pelo tempo e a oxidação feita com chumaços de bombril. A primeira etapa do processo vinha da escolha e recorte de pedaços de lona já interessantes plasticamente: com manchas, rasgos, resíduos gráficos, acúmulos de uma memória visual do tempo de uso e desgaste constante. Esta seleção já implicava um fazer pictórico, constituído pelo olhar do pintor e sua intuição sobre o que poderia se desdobrar a partir dali.
 
Nas pinturas até meados dos anos 1990, a tensão acontecia no embate entre a pulsação temporal da ferrugem, a memória visual acumulada e a organização geométrica da forma na superfície da tela. Cada vez mais, com o maior controle sobre o processo de oxidação, conquistado empiricamente na lida diária do ateliê, com seus acertos e recuos, a pulsação passou a acontecer pela densidade matérica atuando e se expandindo no interior da grade geométrica. O movimento para fora, o salto além do plano, estava dado. Neste ponto, no começo da década passada, há uma inflexão poética em sua trajetória. A concentração obsessiva, com um material e um processo restrito e repetido à exaustão, desloca-se para o embate mais dispersivo com o espaço exterior, obrigando-o a multiplicar os materiais e as estratégias poéticas.
 
A partir daí, ao sair do plano, o embate passa a se dar no atrito com a própria arquitetura, pela desestabilização da sua geometria ordenadora. Há um jogo intenso entre serialidade e singularidade, entre o dentro e o fora, entre a escala (monumental) e o afeto (íntimo). Se, nas lonas enferrujadas, era uma “coisa” do mundo, a lona usada, que se transformava pela intervenção plástica do artista, virtualizando-se no plano, agora, nesta produção polifônica mais recente, pelo deslocamento das tensões entre a geometria e a pulsação matérica, nascidas no interior do seu vocabulário pictórico, é o próprio espaço do mundo que se desestabiliza. O jogo com as escalas, a multiplicação de suportes, as passagens (ou fendas como prefere o artista) entre o dentro e o fora, o virtual e o atual, vão constituindo campos de imantação poética no limite do simbólico, no ponto em que a metáfora e a coisa, a poesia e a literalidade, negociam suas intensidades.
 
Nos trabalhos mais recentes, um deles feito durante a montagem da exposição, usando vidro, oxidação, papel, fórmica, e mais a parede, os cantos da sala e os reflexos de luz, Bechara parece desviar seu foco poético para um jogo mais virtual entre o corpo, o espaço e a arquitetura. Misturando a fragilidade dos materiais, a precisão das incisões geométricas e a instabilidade compositiva, estas peças nos repõem, à sua maneira, na tensão já assinalada do íntimo e do impessoal. Tudo está no limite da dissolução, da quebra, da decomposição. As cores, que também começam a aparecer mais nitidamente na produção atual, são uma novidade curiosa. Nessas peças de vidro, apesar das tonalidades frias, um rosa e um verde esmaecidos, a cor na sua opacidade vazia, quase kitsch, entra para desestabilizar a geometria. Nos desenhos em que sobressai uma gestualidade destemida, a cor apesar de vibrante é o elemento que segura a forma; ao contrário das oxidações em cobre, cujo tom esverdeado dilui a grade estrutural.
 
Um pouco de nossos desafios contemporâneos se encontra nesta tensão, um tanto angustiada, mas sempre renovada, entre uma estruturação formal e uma individuação poética. Vários momentos da obra de Bechara cabem aí dentro e seus desdobramentos recentes parecem atualizá-la e intensificá-la.